6 de mar de 2017

40 Anos da Sede Própria


Quarenta anos da compra da Sede Própria do IPCN


Início dos anos setenta. A seleção brasileira de futebol conquistara o tricampeonato mundial com um elenco repleto de atletas negros, o modelo vitorioso do bicampeonato de 58/62, fora contestado em 1966, resultando num grande fracasso e decidira por uma convocação mais representativa da diversidade racial brasileira com um retumbante sucesso – éramos novamente os melhores do mundo.

Isso era no mundo do futebol, mas a realidade nacional era muito diferente. Ser os principais destaques num campeonato mundial de seleções, não tinha correspondência na vida prática do negro brasileiro. Anúncios de empregos, por mais simples que fossem, estampavam sempre a exigência de boa aparência, - um quesito intransponível para a maioria da nossa população, com qualquer grau de instrução, ainda mais agravado pela pirâmide invertida em relação á sociedade como um todo: Uma minoria com primeiro grau completo, poucos chegando ao segundo grau e, pouquíssimos, conseguindo concluir o nível superior.

Nesse quadro, a insatisfação com as limitações que lhes eram impostas pela conjuntura levou a juventude negra a se reunir em várias partes do Rio de Janeiro, contestando principalmente o mito da democracia racial, quando ao negro só restavam disponíveis as atividades mais subalternas, ainda assim, com várias restrições. Anúncios para empregos, mesmo os mais simples, viam sempre com a exigência de boa aparência. Foi de um desses grupos que surgiu o IPCN - Instituto de Pesquisa das culturas Negras, obrigado por questões políticas a deixar a clandestinidade em 9 de julho de 1975, constituindo-se numa entidade formal, com registro do cadastro de pessoas jurídica. De perambulação em perambulação por vários endereços, inclusive nas residências de seus participantes, faltava a conquista de um território próprio.

A oportunidade surgiu através de um suporte financeiro da Fundação Interamericana, do Partido Democrata dos Estados Unidos por intermediação de Jimmy Lee, um atleta de basquete entre outros que faziam uma temporada nos times do Rio de Janeiro A ideia inicial era a aquisição de uma sala comercial no centro da cidade onde as lideranças poderiam se reunir e traçar as estratégias da luta. A ideia não agradava a todos pois sabíamos dos constrangimentos que vínhamos sofrendo nesses ambientes. Foi então que Pedro Sérgio, um dirigente ligado a Sergio Dourado uma das maiores empreiteiras da época e com vasto conhecimento no ramo, apresentou a proposta de se procurar um imóvel numa área degradada próximo à Cruz Vermelha, onde sabia havia proposta para uma futura estação do recém iniciado Metro. Foi assim que chegamos à Mem de Sá 208, um espaço exclusivo, muitas vezes mais amplo que a ideia original, concretizando a compra desse imóvel no dia 21 de março de 1977.

A sede própria, aberta à todos os seguimentos, alavancou nossa luta por mais de uma década, com destaque para discussão da Constituição de 1988, a primeira a incluir em seu texto itens que derivaram em leis específicos para a população negra.

Após uma decadência profunda, talvez por mais de dez anos, vários grupos vem sendo formados com insucesso para manter a Sede Própria do IPCN em funcionamento. O pior já passou, pois após o risco de desmoronamento, intervenções pontuais já permitem o seu uso por grupos interessados a dar continuidade a essa luta. Além do que abriga o acervo apreendido pela polícia do Distrito Federal dos objetos de culto das religiões afro-brasileiras na metade do século passado.

Assim é que foi aberta uma conta corrente de número 9308-4, no Banco Bradesco 237, Agência 6752, Cinelândia, não só com o objetivo de não deixar o imóvel voltar ao fundo do poço que chegou no passado, mas quem sabe, voltar no futuro a ser abrigo das formulações de novas gerações para mais avanços de nosso povo.


RGI